O Homem do Sambaqui

GODOLFIM, Luiz Roberto

 

O Homem Pré-Histórico Brasileiro

 

 

O início da ocupação humana no Brasil é ainda tema de discussão entre os pesquisadores (GASPAR – 2000), alguns crêem que o Brasil já era habitado há 40.000 anos, porém as datações mais antigas que se tem confirmado são de cerca de 12.000 anos, tendo o indivíduo mais antigo já encontrado no Brasil (Luzia – Homem de Lagoa Santa) datado em 11.500 anos. O Homem do Sambaqui instalou-se nas áreas litorâneas das regiões Sul e Sudeste do Brasil há 6500 anos AP e é considerado o correspondente litorâneo do Homem de Lagoa Santa (GASPAR – 2000).

Divide-se em dois grupos principais, de acordo com a produção dos artefatos, sendo um grupo mais antigo, pré-cerâmico e outro grupo, mais moderno, já com tradição ceramista Itararé. Estes indivíduos eram eminentemente caçadores, pescadores e coletores e se alimentavam principalmente da caça de animais silvestres, pesca e principalmente dos moluscos coletados no litoral. Tinham grande similaridade genética entre os diversos grupos (SCHIMITZ et al 1993).

Apesar de algumas teorias caracterizarem estes indivíduos como povos nômades que se locomoviam sazonalmente do planalto para o litoral, no estudo realizado pela arqueóloga MADU GASPAR em 1994 e 1995, foi verificado que a maioria dos assentamentos eram bastante estáveis, tendo ficado ativos por centenas de anos, chegando até mil anos.

Eram indivíduos de baixa estatura, com média de 1,60m para os homens e 1,50m para as mulheres.

Possuíam uma excelente estrutura crânio-facial evidenciado pelas mandíbulas bastante robustas, com inserções musculares bem marcadas, demonstrando o intenso trabalho muscular.

Em estudo cefalométrico, PEREIRA (1985) evidenciou claramente as excelentes relações esqueléticas crânio-faciais do Homem do sambaqui.

 

Perfil do Homem do Sambaqui evidenciando uma estrutura forte e harmônica

 

                      

A expectativa de vida era de no máximo 35 anos para as mulheres e cerca de 45 anos para os homens, (SCHIMITZ et al, 1993 e 1999). Cerca de 60% da população morria entre 20 e 30 anos, sendo que as mulheres geralmente morriam mais cedo que os homens.(SCHIMITZ et al, 1993).

Durante este breve período de vida, o sistema estomatognático desses indivíduos era severamente exigido, devido a uma dieta extremamente dura e seca e ao uso dos dentes como ferramenta.(SCHIMITZ et al, 1999). Os dentes sofriam uma abrasão tão acentuada que os indivíduos nessa faixa de 20 a 30 anos apresentavam perda de toda a coroa dentária chegando a exposição dos canais radiculares, e os indivíduos mais velhos apresentavam sérios deslocamentos dos molares e perda de vários elementos dentários.

 

 

Pode-se observar o extenso desgaste dos dentes, expondo a câmara pulpar e separando as raízes

 

Pode-se observar nestes indivíduos uma acentuada migração dentária para mesial devido ao intenso desgaste dentário, evidenciado pela mudança na posição relativa das raízes dos pré-molares com o foramem mentoniano.

Estes grupos extinguiram-se com a chegada dos grupos Guaranis vindos da região Amazônica, entre o final do primeiro e o início do segundo milênio da nossa era.

 

 

1.        Sambaqui: Grandes amontoados de conchas (principalmente o Berbigão ou Vôngole) e restos faunísticos (ossos de aves, mamíferos e peixes) apresentando-se sob forma de colinas de base oval ou redonda, dispostas em camadas pouco espessas, chegando a mais de 30 m de altura. Serviam para manter as ocupações em terreno seco, controlando o regime das águas, bem como para enterrar os mortos. A origem da palavra é do Tupi, Tamba = concha e Ki = amontoado.

 

2.        AP: Antes do Presente. Por convenção é 1950, tratando-se de uma menção à descoberta da técnica de datação com C14. 6500 anos AP equivalem a 4550 anos Antes de Cristo

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

1.       Gaspar M. Sambaqui: Arqueologia do Litoral Brasileiro. Rio de Janeiro. Jorge Zahar edit. 2000

2.       Pereira CB e Col. Craniometria Radiográfica em População Pré-Histórica Brasileira. Pesquisas Antropologia, 1985, 40.

3.       Rohr JA. O Sítio Arqueológico do Pantano do Sul SC-F-10. Florianópolis, Imprensa Oficial do Estado de Santa Catarina, 1977

4.        Schimitz PI, et alli. Içara: Um Jazigo Mortuário No Litoral De Santa Catarina. Pesquisas – Arqueologia, Instit. Anchietano De Pesq. 1999, 55

5.       Schimitz PI, et alli. Visão De Conjunto Dos Sítios De Tapera, Armação Do Sul, Laranjeiras I E II, Pântano Do Sul E Cabeçudas. Pesquisas – Arqueologia, Instit. Anchietano De Pesq. 1996, 53: 183-90

6.       Schimitz PI, et alli. Escavações Arqueológicas Do Padre João Alfredo Rohr. Pesquisas – Arqueologia, Instit. Anchietano De Pesq. 1993, 49: 09-26